O editorial de hoje é, antes de tudo, um agradecimento ao Legislativo de Casa Branca. Sim, um agradecimento. Afinal, enquanto a cidade acompanha sua Santa Casa ser envolvida em um dos episódios mais delicados dos últimos anos, parte dos vereadores preferiu usar o tempo de fala na 7ª sessão ordinária para atacar o... Portal da Cidade!
Não debateram, com a mesma intensidade, sobre o que teria levado o único hospital de Casa Branca ao centro de um convênio milionário firmado com a Prefeitura de São José do Rio Preto que virou alvo de CPI e foi anulado. Não questionaram, com a mesma disposição, por que ainda faltam respostas sobre a origem, a tramitação, a execução e a anulação desse contrato. Preferiram questionar a imprensa por cumprir seu papel: levar ao conhecimento da população informações de evidente interesse público.
É isso mesmo que você está lendo. Quem foi questionado com mais energia durante a sessão foi o Portal da Cidade, e não o gestor da Santa Casa, que havia sido convocado para prestar esclarecimentos. Até o momento, a reportagem não foi informada sobre confirmação de presença na convocação do dia 08, e ainda faltam respostas objetivas sobre pontos essenciais.
Por isso, o agradecimento é necessário. Se, em meio a um caso que já envolve CPI em Rio Preto, representações em órgãos de controle, anulação de convênio, sindicância e a necessidade de recomposição de valores pagos antecipadamente, alguns parlamentares entendem que o problema central é a cobertura jornalística, então fica claro que a imprensa está tocando exatamente no ponto certo.
É preciso deixar algo muito claro: questionar um contrato público não é atacar a cidade. Pedir explicações sobre recursos, prazos, responsabilidades e capacidade de execução não é torcer contra a Santa Casa. Ao contrário. Quem verdadeiramente defende uma instituição essencial para Casa Branca deve querer que tudo seja explicado, documentado e esclarecido, sem atalhos, sem discurso pronto e sem tentativa de intimidação.
O Portal da Cidade não criou o convênio, não assinou o contrato, não autorizou pagamentos e não abriu CPI. O Portal fez o que a imprensa deve fazer: apurar, perguntar, publicar documentos, ouvir os envolvidos e dar transparência aos fatos. Se isso incomoda, talvez o incômodo não esteja na notícia, mas no conteúdo que ela revela.
Entre eles estão a devolução dos R$ 4,7 milhões já pagos à Santa Casa, o prazo para recomposição desses valores, a forma como os recursos serão devolvidos à Prefeitura de São José do Rio Preto, a existência ou não de notificação formal à entidade e os detalhes sobre a sindicância anunciada pela administração rio-pretense.
Também é necessário saber qual foi a participação efetiva da Santa Casa na construção do convênio, quais documentos foram apresentados, quais garantias operacionais foram dadas e se houve início de qualquer etapa de execução antes da anulação.
Essas são as perguntas que importam. Não porque interessam ao Portal da Cidade, mas porque interessam à população. A Santa Casa é maior do que qualquer grupo político, maior do que qualquer mandato e maior do que qualquer tentativa de blindagem discursiva. Justamente por isso, precisa ser protegida com verdade, transparência e responsabilidade.
Marcus Azevedo

Enquanto se despede da câmara, o vereador Marcus Azevedo voltou a atacar a imprensa ao citar uma possível denúncia envolvendo recursos da Educação e insinuar falta de cobertura sobre o tema. O argumento, porém, esbarra em uma pergunta simples: se há documentos, provas ou denúncia formal, por que não encaminhá-los à imprensa para apuração e publicação?
O vereador já teve espaço no Portal da Cidade para se manifestar e tratar de assuntos de seu interesse. Se havia uma denúncia relevante, de interesse público, esse seria o caminho natural: apresentar documentos, indicar fontes, formalizar a informação e permitir que o caso fosse apurado com responsabilidade.
Atacar a imprensa não substitui prova. Insinuar seletividade não responde a fatos. A cobertura sobre a situação política do próprio vereador, que teve o mandato cassado por fraude a cota de gênero cometida pelo Republicanos, partido do qual é presidente, também é legítima, porque envolve mandato eletivo, voto popular e representação pública. Quem ocupa cargo público precisa compreender que seus atos, seus processos e suas falas são de interesse da população.
A pergunta que permanece é objetiva: interessa mais discutir quem financia um jornal ou esclarecer o que aconteceu com o convênio da Santa Casa? A população tem direito de saber quem assinou, quem autorizou, quem recebeu, quem pagou, quem fiscalizou e quem deverá responder pelos desdobramentos desse caso.
Murilo Giordan

O vereador Murilo Giordan recorreu ao já conhecido discurso da união, mas união verdadeira não se constrói silenciando críticas. União não significa pedir que a cidade feche os olhos para um convênio milionário que se tornou alvo de questionamentos em diferentes esferas. União, em uma democracia, passa por transparência, prestação de contas e respeito ao direito de perguntar.
Classificar críticas como “show de horror” ou tentar reduzir questionamentos a militância política não ajuda a Santa Casa, não ajuda a Câmara e não ajuda a população. O caso não está sendo discutido apenas por opinião de redes sociais ou por disputa partidária. Há CPI aberta em Rio Preto, há representações encaminhadas a órgãos de controle e há uma decisão da própria Prefeitura de São José do Rio Preto pela anulação do convênio.
Diante disso, a pergunta correta não é se a imprensa deveria noticiar. A pergunta correta é: em que momento a Santa Casa foi envolvida nesse convênio, por quais razões e sob quais garantias administrativas, técnicas e financeiras?
Quem se dispõe a defender publicamente o caso também precisa estar disposto a responder publicamente às perguntas que ele impõe.
Jacaré
O vereador Jacaré voltou a afirmar que o Executivo municipal de Casa Branca não estaria envolvido no caso, mesmo sem que essa fosse a acusação central apresentada pela reportagem. Esse tipo de fala acaba criando uma defesa antecipada de algo que, até então, nem era o ponto principal do debate.
O tema central é a Santa Casa de Casa Branca, instituição fundamental para a cidade, mantida em grande parte com recursos públicos e com papel essencial no atendimento à população. Quando uma entidade com essa relevância aparece ligada a um convênio milionário que foi anulado por outro município, a Câmara tem obrigação de perguntar, fiscalizar e buscar esclarecimentos.
Falar sobre outras obras, outros investimentos ou outras pautas da Saúde não responde às dúvidas específicas sobre o convênio. O fato de a Santa Casa ter personalidade jurídica própria não elimina o interesse público sobre sua gestão, especialmente quando há dinheiro público, atendimento público e impacto direto na vida da população de Casa Branca.
Lucas Leite

O vereador Lucas Leite iniciou sua fala mencionando polarização entre esquerda e direita. O argumento, porém, perde força quando se observa que, em São José do Rio Preto, vereadores de diferentes campos políticos se uniram para investigar o convênio com a Santa Casa.
O caso não deveria ser tratado como disputa ideológica. Trata-se de um convênio milionário, de recursos públicos, de uma instituição hospitalar essencial e de uma decisão administrativa que levou à anulação do ajuste. Reduzir esse debate a esquerda contra direita é uma forma de simplificar o que exige análise técnica, documental e institucional.
O vereador também afirmou que o assunto deve ser tratado com base em documentos, e nisso ele está correto. É exatamente por isso que a imprensa tem buscado documentos, encaminhado questionamentos, cobrado respostas e publicado informações verificáveis. Jornalismo sério não se baseia em torcida, mas em fatos. E os fatos, até aqui, exigem esclarecimento.
Fabiana Sandoval

A presidente da Câmara, Fabiana Sandoval, afirmou que solicitou documentos sobre o contrato envolvendo a Santa Casa. Essa é uma postura correta e necessária. O Legislativo deve, de fato, buscar documentos, cobrar informações e fiscalizar tudo que envolva interesse público.
O problema começa quando a discussão deixa de ser sobre documentos e passa a ser sobre a imprensa. Ao afirmar que sua fala sobre “complexo de vira-lata” teria sido manipulada ou retirada de contexto, a presidente tenta deslocar o debate para a interpretação de sua declaração, quando o centro da questão deveria ser outro: o convênio, os valores, a anulação, a recomposição dos recursos e a responsabilidade de cada envolvido.
A presidente também citou ações do próprio mandato, mas cumprir deveres institucionais não encerra o debate público. Vereadores são eleitos para fiscalizar, representar e prestar contas. Quando uma crise dessa proporção envolve a principal instituição hospitalar da cidade, a cobrança precisa ser ainda maior.
Quanto a eventuais críticas ao Portal da Cidade, é importante reforçar que relações comerciais, posicionamentos editoriais e cobertura jornalística não podem ser usados como cortina de fumaça para fugir do assunto principal. A pergunta que deve orientar a Câmara é simples: o que aconteceu com o convênio da Santa Casa e quais serão as consequências para Casa Branca?
Ao atacar a imprensa e levantar suspeitas sobre alianças políticas, a presidente da Câmara abre espaço para que outras falas políticas também sejam lembradas. Nesse ponto, cabe citar explicitamente a manifestação atribuída ao vice-prefeito Colombini, que questionou publicamente se determinadas defesas ao Executivo teriam relação com a nomeação do namorado da vereadora para cargo de confiança, com remuneração líquida superior a R$ 4 mil por mês.
Esse tipo de menção não deve ser tratado como ataque pessoal, mas como exemplo de que, quando agentes públicos escolhem levar o debate para o campo das relações políticas e pessoais, precisam aceitar que a mesma régua seja aplicada a todos. Se existem vínculos políticos, nomeações em cargos de confiança ou relações administrativas que possam gerar questionamentos públicos, esses temas devem ser tratados com documentos, responsabilidade e transparência. A cidade não precisa de insinuações vazias; precisa de informação comprovada.
A imprensa não é inimiga da cidade quando pergunta. Inimigo da cidade é o silêncio diante de fatos graves. Inimiga da população é a tentativa de transformar cobrança legítima em ataque político. Inimiga da verdade é a estratégia de atacar o mensageiro para não responder à mensagem.
O Portal da Cidade seguirá fazendo o que sempre fez: perguntando, apurando, publicando e dando espaço para todos os lados se manifestarem. Quem tem resposta deve apresentá-la. Quem tem documento deve mostrá-lo. Quem ocupa cargo público deve prestar contas.
Porque, no fim, a pergunta continua de pé: por que tanta gente se incomodou mais com a notícia do que com o fato noticiado?