Como fotógrafo, escritor e cineasta, acredito profundamente que toda linguagem artística carrega uma responsabilidade histórica. Não criamos apenas imagens, palavras ou filmes: criamos memória. E é justamente por isso que considero não apenas válida, mas urgente e necessária, a produção de filmes que abordam a ditadura militar brasileira.
Falar sobre esse período não é um capricho ideológico nem uma insistência nos traumas do passado. É um compromisso com a verdade. A ditadura existiu, foi violenta, censurou, perseguiu, torturou e matou. Esses fatos não pertencem ao campo da opinião, pertencem à história. Quando escolhemos revisitá-los por meio do cinema, estamos reafirmando algo fundamental: isso aconteceu, deixou marcas profundas e não pode ser esquecido ou relativizado.
O cinema tem um poder que vai além da informação. Ele cria empatia, aproxima o espectador da experiência humana por trás dos fatos históricos. Para quem não viveu aquele período, um filme pode ser a primeira porta de entrada para compreender o que significa viver sob um regime de exceção. Para quem viveu, pode ser um espaço de reconhecimento, escuta e memória.
Vivemos um tempo estranho e perigoso, em que o negacionismo se tornou cada vez mais explícito e agressivo. Questionar a gravidade da ditadura ou tentar romantizá-la ou relativizá-la não é apenas uma distorção histórica, é um sintoma de adoecimento social. Quando uma sociedade começa a tratar a violência de Estado como algo discutível, ela brinca com a possibilidade de repeti-la.
Aprender com o passado é uma condição básica para proteger o futuro. A arte, e especialmente o cinema, tem um papel central nesse processo. Filmes sobre a ditadura não servem para manter feridas abertas, mas para impedir que novas feridas sejam feitas. Eles nos lembram de que democracia, liberdade de expressão e direitos humanos não são garantias eternas, são conquistas que precisam ser constantemente defendidas.
Também há uma dimensão ética que não pode ser ignorada. As vítimas da ditadura não podem ser apagadas da narrativa nacional. Contar suas histórias é um ato de respeito, de humanidade e de justiça. O esquecimento, ao contrário, sempre favorece os mesmos mecanismos de violência e autoritarismo.
Por isso, produzir um filme sobre a ditadura militar brasileira é um gesto de resistência. É afirmar que a memória importa, que a verdade importa e que não aceitaremos que um dos períodos mais sombrios da nossa história seja tratado como versão, opinião ou nostalgia. Enquanto houver tentativas de negar ou minimizar o que aconteceu, continuará sendo necessário filmar, escrever, fotografar e narrar. Lembrar, hoje, é um ato político e profundamente humano.
E viva o Cinema Brasileiro.