Em 1984 o Brasil promulgou uma lei que era a consolidação de uma política nacional relacionada aos sistemas de informática. A lei proibia a importação de equipamentos de informática e softwares, prevendo a possibilidade de importação somente em casos muito específicos e que o governo achasse interessante. À época, a intenção do governo era aproveitar o boom dos mercados exteriores nesse tema e forçar a ciência brasileira a desenvolver equipamentos e softwares nacionais, tornando o Brasil um expoente nessa nova indústria emergente. Assim como qualquer isolacionismo, isso implicou num atraso gigantesco da indústria braseira com reflexos gigantes em toda a cadeia produtiva. Em 1990 a lei foi revogada, mas já estávamos centenas de anos atrasados em relação ao mercado exterior. Esse protecionismo foi um equívoco (talvez o maior da história industrial basileira), pois sabemos que o desenvolvimento é resultado de um conjunto de cenários concomitantes, e é preciso entender que somente a livre iniciativa e as forças de mercado são capazes de gerar conhecimento e desenvolvimento.
Uma das maiores críticas ao sistema capitalista reside no fato de ser considerado a lei da selva, onde o mais forte subjuga o mais fraco. Na verdade, se observamos com atenção, uma selva é exatamente o inverso disso: uma selva é um sistema dinâmico em equilíbrio, onde há a coexistência de diversos atores que, em conjunto, desenvolvem uma sociedade autossuficiente, e esse é exatamente o que se busca nos modelos econômicos. O maior exemplo desse equilíbrio e da importância das estratégias é o próprio ser humano. Não somos os mais fortes, nem muito menos os mais hábeis. O que nos diferencia, dentro do reino animal, é a nossa capacidade de desenvolvermos estratégias de equilíbrio e proteção, mesmo diante de nossas deficiências.
Fiz esse preâmbulo para levantar alguns pontos de discussão sobre o papel da associação comercial dentro do ambiente de negócios onde ela está inserida. A associação comercial tem um papel fundamental para garantir que quaisquer dificuldades enfrentadas por seus associados, para a sua participação no mercado seja vencida, implicando em ações como o relacionamento com os poderes públicos e suas entidades. Nesse papel, atuamos de forma reduzir ao mínimo os entraves para que as empresas se desenvolvam contínua e saudavelmente. Nosso papel não é interferir nos mercados, nem mesmo cercear A ou B a operarem, mas ajudar a promover um ambiente em que ninguém seja beneficiado em detrimento a outro. Isso se chama ambiente negocial saudável.
Além desse papel, creio que temos dois outros fundamentais, ambos relacionados à excelência. De um lado, pela própria capilaridade nacional, somos agentes de promoção de avanços de excelência operacional e gerencial de nossos associados. Descobrindo novos caminhos de operação, promovemos tecnologias, dando acesso aos associados ao que há de mais novo, avançado e positivo em termos de práticas de suas operações e gestão. Recentemente em um evento de nossa federação, um diretor lembrou que a grande vantagem de estar em um meio associado, em conjunto com pessoas que desenvolvem atividades como as suas, é compreender que os seus problemas não são únicos e que muitos já atravessaram e, portanto, podem te ajudar a achar soluções. Assim, promovemos a excelência de nossos associados.
O outro papel nosso, relacionado também à excelência, diz respeito à comunicação dessa excelência ao mercado. Tecnologias de marketing e propaganda são fundamentais para que atinjamos nossos objetivos, e promovemos ferramentas e soluções aplicáveis a todos os portes de empresa. Essa atuação na excelência dos associados é o ponto em que a associação pode atuar, promovendo e apoiando a excelência como diferencial para manutenção, crescimento ou perda de mercado de atuação.
A concorrência é uma atividade salutar, pois para que nos mantenhamos vivos e partícipes do mercado, precisamos ser a versão excelente de nós mesmos e de nossos serviços. Somente com a concorrência temos a possibilidade de enxergarmos oportunidades de aprimoramento, de evoluirmos como agentes econômicos e nos tornarmos líderes consolidados. O monopólio, por outro lado, pode gerar uma sensação de intocabilidade que impede a evolução.
É interessante observarmos os movimentos econômicos, principalmente aqueles que afetam algum nível de monopólio. As empresas nessas posições tendem a buscar agentes externos para justificar intrusos em seus mercados, sem perceber que a sua posição resulta da constante observância à evolução da sua excelência, comunicação dela e alimentação do encantamento do cliente. É natural ao ser humano buscar culpados pela sua vulnerabilidade, e exige muito olharmos para a nossa atuação como empresários e reconhecermos que o problema não é a presença do estranho, mas nossa inabilidade de conviver com ele.
Voltando ao início do texto, quando falei do mercado de informática, todos os computadores têm em seu coração um dispositivo chamado processador, e a empresa mais conhecida nesse mercado é a Intel. Andy Grove, ex-CEO da Intel uma vez disse que “A concorrência força você a inovar, a melhorar constantemente e a criar valor real para o cliente. Sem ela, você fica complacente”.
O maior problema não é a existência da concorrência, nem mesmo os castelos de areia criados para culpar A ou B que não interferiram para evitá-la, mas nossa inabilidade em conviver com ela e, pela excelência, consolidar a nossa posição mercadológica. Em um regime de livre comércio, é muito desgastante a luta do dia a dia, ainda mais por não termos muito suporte, mas somente nos consolidamos como líderes se além de chegarmos lá, mantermo-nos aptos a permanecer lá. No final, quem ganha com isso é o cliente que, encantado, move-se para aquele que lhe provê excelência.
Sim, a concorrência é incômoda. Mas somente por sua existência evoluímos pessoal, profissional e empresarialmente.