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Cultura

Uma vez, Casa Branca... 50 anos

Porque só o coração é eterno – Ganymedes José

Publicado em 13/10/2023 às 19:45
Atualizado em

Uma vez, Casa Branca... 50 anos (Foto: Reprodução)

O ano de 2023 marca o cinquentenário da publicação do livro UMA VEZ, CASA BRANCA..., de Ganymédes José. Foi a grande contribuição do escritor casa-branquense, entre tantas outras que viriam nos anos seguintes, até a sua morte prematura, em 9/7/1990, à memória da sua terra querida.

“Desde pequeno, eu sempre esperei que alguém me contasse a história de Casa Branca. Deveria ser uma história diferente, cheia de calor humano, simples, honesta e gostosa... E ninguém me sabia responder!” (Ganymédes José – Uma Vez, Casa Branca..., pág. 9, 1973, São Paulo Editora S.A.

A Obra


Capa de Uma Vez, Casa Branca, traz uma reprodução feita por Tenê do quadro original de A. P. Dutra – a modelo é a tenista Nenê Moffa

Uma Vez, Casa Branca... foi publicado em 1973, sob o patrocínio da Prefeitura Municipal de Casa Branca, na administração do prefeito municipal Ary Marcondes do Amaral. O livro, com 155 páginas, foi composto e impresso na São Paulo Editora S. A., na capital paulista, sob demanda, empresa gráfica que não existe mais. A capa reproduz, em estilo sóbrio e delicado, por Tenê, como era conhecido Clístenes, o irmão de Ganymédes José, um quadro de Antonio Pádua Dutra, representando a esportista casa-branquense Nenê Moffa (Maria Josefina Moffa), tenista que fez muito sucesso nas quadras da ACCPE. Na página 6, mais um trabalho artístico de Tenê, na caricatura de Ganymédes José a bico-de-pena, ao lado da menção das três obras do escritor que iniciava a sua trajetória na literatura, a muito custo e depois de muita luta para conseguir ser publicado. A participação de Tenê na obra do irmão demonstrava a perfeita combinação e entrosamento dos dois filhos de dona Rita e seu João de Oliveira no mundo das artes. Essa colaboração mútua se estenderia ainda por muito tempo vida afora.


Ganymédes José, no traço do seu irmão, Tenê, para o livro Uma Vez, Casa Branca...

 Na sequência inicial do livro, o prefácio coube ao desembargador Mário Hoepnner Dutra, do Tribunal de Justiça do Estado, em texto datado de março de 1973, prova da proximidade que Ganymédes José tinha com autoridades do poder judiciário, graças, talvez, ao fato de ser filho de cartorário, ter exercido a função de funcionário do cartório paterno e, consequentemente, cursado Direito, antes de dedicar-se inteiramente às letras e ao magistério, após concluir a faculdade de Letras, em São José do Rio Pardo. O autor do prefácio inicia suas considerações falando das aspirações da juventude, e continua mencionando as qualidades de Ganymédes na literatura e como pesquisador da história da cidade de Casa Branca, que originou o livro por ele apresentado.

A Origem de Uma Vez, Casa Branca...

 A história do livro de Ganymédes José tem uma trajetória pouco conhecida dos casa-branquenses que conhecem e leram a obra.

Tudo se iniciou com um concurso, promovido pela Câmara Municipal, sobre a história de Casa Branca, cujo prêmio ao vencedor seria a publicação do trabalho em livro. Precisamos destacar, também, a época em que isso aconteceu. Eram os anos 1960/1970, pós 1964, em plena efervescência da ditadura militar. Casa Branca, como toda pequena cidade do interior, assistia de longe aos acontecimentos, e seus governantes e demais autoridades cumpriam à risca as determinações que vinham das instâncias superiores. Os anos 1960 foram para Casa Branca uma época de muito pouca informação. A cidade, nessa década, não contava com jornal impresso, o que dificulta a pesquisa histórica dos fatos cotidianos do local. O único meio de comunicação em atividade era a Rádio Difusora, pertencente à Congregação Estigmatina. Em 25/10/1970, finalmente, surgiu o jornal Folha de Casa Branca, propriedade da gráfica O Movimento, de Pirassununga, comandado pelo jornalista Daniel Caetano do Carmo, que editava diversos jornais na região. Entre os primeiros colaboradores da Folha, estavam Ganymédes José e seu irmão Tenê.

Para o concurso promovido pela Câmara Municipal, apresentou-se o jovem Ganymédes José, que na época já tinha uma trajetória de participação em eventos artísticos e culturais da cidade: foi vencedor do concurso promovido pela Prefeitura Municipal para elaboração do Brasão do município, em 1958, sob a gestão do prefeito João Salles Cunha, além de participar dos festivais de música popular promovidos pelo Tiro de Guerra no Cine Casa Branca, sob a coordenação do sargento Moacir de Aguiar, onde foi apresentador e vencedor, com a composição Mensagem.

Nessa ocasião, Ganymédes era professor do Colégio Comercial, dirigido por Jonas Capelli, que funcionava no antigo prédio dos laticínios Ararat, de Krikor Sanossian, na esquina das ruas Duque de Caxias com Altino Arantes, em frente à Igreja Presbiteriana, ao lado do Banco do Brasil. Utilizando-se de seu espírito de pesquisador e interessado pelas histórias da cidade, Ganymédes valeu-se de seus alunos para resgatar o acervo de jornais publicados durante várias décadas pelo maestro Justino de Castro, falecido na década de 1940 e continuado por seu filho, Silvio de Castro. O extinto jornal O Casa Branca foi uma fonte inesgotável de material para compor a história de Casa Branca ao longo de todo o século XX, uma vez que Justino de Castro também tinha veia de pesquisador e continuamente publicava informações históricas do município. O acervo de O Casa Branca possuía, também, vasta coleção de exemplares de diversos outros periódicos publicados em Casa Branca, desde que a imprensa se instalou na cidade. Desses inúmeros jornais, muitos dos quais restavam ou foram editadas pequenas e limitadas edições, também fluíram preciosas informações, que Ganymédes juntou, selecionou e costurou em seu futuro livro sobre a sua cidade.

Ganymédes, além do enorme acervo de jornais de Justino de Castro, utilizou em sua pesquisa os livros de atas da Câmara Municipal, enorme registro da vida pública, política e administrativa de Casa Branca desde a criação da vila, em 1841, além dos livros da igreja matriz, outra fonte inesgotável de informações.

Não sabemos se, no concurso promovido pela prefeitura, tenha havido algum outro participante. O fato é que Ganymédes pesquisou e elaborou seu trabalho, apresentando-o, mas sem conseguir o prêmio prometido, ou seja, a publicação do livro. Depois de muito reclamar e passada a gestão promotora do evento, o então prefeito Ary Marcondes do Amaral, atendendo ao compromisso assumido pela municipalidade, determinou a impressão de Uma Vez, Casa Branca...

O Lançamento de Uma Vez, Casa Branca...


Jornal Folha de Casa Branca, edição 153, de 14 de outubro de 1973

Para Ganymédes José, ter o seu livro sobre a história de Casa Branca publicado foi uma enorme vitória. No ano anterior, 1972, ele já havia conseguido alcançar o grande objetivo da sua vida de escritor: a Editora Três, através da ajuda do amigo Ignácio de Loyola Brandão, publicara ao longo do ano os fascículos de A Vida de Cristo, portentosa obra vendida em bancas de jornais de todo o país que, reunidos, davam origem a um maravilhoso volume, ricamente ilustrado. A pesquisa e o texto eram do escritor casa-branquense e esse é considerado o seu primeiro livro publicado. Ganymédes José tinha, na época, 36 anos.


A Vida de Cristo, considerado o primeiro livro de Ganymédes José, foi publicado em 1972, pela Editora Três, em 20 fascículos vendidos em bancas de jornais do Brasil

 A publicação de Uma Vez, Casa Branca... tinha alguns elementos de prazer ainda maiores em relação ao livro A Vida de Cristo. Se, no primeiro, Ganymédes trabalhara sobre um assunto de conhecimento mundial, com poucas chances de exercer a sua criatividade literária, no segundo livro a sua imaginação correu solta. Embora construída sobre acontecimentos históricos, o escritor pode alinhavar os fatos da história da cidade com a criação de personagens e histórias de fundo que vinham da sua fértil imaginação. Por isso, Uma Vez Casa Branca..., embora tenha uma construção cronológica fielmente relacionada aos eventos da história da fundação e evolução do município, pode ser lido como um romance. Na obra, Ganymédes revela o seu grande dom de contador de histórias que prendem o leitor do começo ao fim, sem cansar.

Em entrevista ao jornal Folha de Casa Branca, edição de 14/10/1973, Ganymédes disse: “Tentei escrever uma história aconchegante e de bom paladar como jabuticaba madura. Para que os jovens não desanimassem de ler, usei da síntese. Para os mais velhos, pedi ao seu Domingos e {à bem humorada dona Narcisa – pessoal da Editora São Paulo (gente bacana e paciente, pois me aguentaram sem me enxotarem às vassouradas...) que imprimissem com tipos bem grandes. Como o ser humano repete-se em outras almas e em outros corpos, espero que meu livro não seja para uma geração específica.”

Outro fator de júbilo para o escritor foi o município, através do poder público, investir na publicação do seu trabalho, num gesto de reconhecimento cultural de um filho da terra, algo extremamente raro em cidades pequenas.

Troféu Jabuticaba

 Na mesma época de lançamento de Uma Vez, Casa Branca..., a Câmara Municipal concedeu a Ganymédes o Troféu Jabuticaba. Era o reconhecimento definitivo de sua terra ao seu filho ilustre.

A edição 155, de 25 de outubro de 1973, noticiou a festa da entrega do Troféu Jabutucaba

A década de 1970 mostrava que realmente aqueles seriam os anos de revelar Ganymédes José para o mundo. Depois de tantas idas e vindas, tantos esforços para ser reconhecido, finalmente, os anos 1970 se mostravam favoráveis para que o escritor de Casa Branca saísse do casulo e se libertasse das paredes que o prendiam à pequena cidade. Em 1972 surgiu A Vida de Cristo, em 1973, Uma Vez, Casa Branca..., no ano seguinte, 1974, sob patrocínio do CPP – Centro do Professorado Paulista, sob o comando e influência insubestimável do deputado Sólon Borges dos Reis, outro casa-branquense de destaque nacional, foi publicado o terceiro livro do escritor, Classe Média, outro romance e, a partir de 1975, pela editora carioca Tecnoprint (depois Ediouro), viriam os livros infanto-juvenis que se tornaram febre entre a juventude, com séries insuperáveis como A Inspetora, com mais de 40 edições, Goiabinha e Vivi Pimenta. Ganymédes, finalmente, tinha as portas abertas do mercado editorial para as suas obras. E não parou mais, até morrer...

Classe Média, publicado em 1974, sob o patrocínio do C.P.P. – Centro do Professorado Paulista – a capa, novamente, é de Tenê

Conclusão

Uma Vez, Casa Branca... não é uma obra perfeita, obviamente. Como foi dito, Ganymédes valeu-se de diversas fontes de consulta para elaborar a sua história. Entremeou os fatos históricos encontrados em jornais, atas da câmara, livros da igreja, etc, com um tanto de ficção, justamente para dar ao livro o sabor de uma história contada, com leveza e fluidez, difíceis de se alcançar em uma obra árida de pesquisa histórica. Ganymédes já revelava, ali, seu dom de contador de histórias para a juventude, que seria o seu grande público até o fim da vida.

O estudioso da história de Casa Branca vai encontrar no livro, em muitos momentos, diversos erros históricos, datas inverídicas e até mesmo fatos provenientes da imaginação popular, sem qualquer comprovação documental. Ganymédes, certamente, tinha consciência disso. O grande mérito de Uma Vez, Casa Branca..., não é o seu rigor histórico, mas o fato de ter trazido aos leitores casa-branquenses de todas as idades a história de Casa Branca como ela deveria ser: bonita, leve, agradável, despertando o interesse em conhecer as origens e o desenvolvimento da cidade. Não existe profundidade na obra de Ganymédes José, nem era essa a sua intenção, mas sim uma dose de amor incondicional por sua terra, amor esse que irradia das páginas do livro, contagiando os leitores que, nesses 50 anos, se deleitaram com o escritor e sua maneira de contar.

Uma Vez, Casa Branca... completa, em 2023, 50 anos de idade. Mesmo com o passar de cinco décadas, tendo uma edição muito pequena, patrocinada pelo poder público municipal, é um livro que vive no imaginário dos casa-branquenses e, ainda, é muito procurado por leitores que já o leram ou desejam ler. Porém, torna-se, a cada ano, mais difícil de ser achado. Anos atrás tentei viabilizar a sua publicação, mas existiam enormes entraves burocráticos, advindos, principalmente, da morte de Ganymédes José, em 9/7/1990, e de seus familiares mais próximos, os pais, João e Rita, e, finalmente, o irmão, Clístenes (Tenê), herdeiros diretos. Sem a autorização de quem detém o direito sobre o espólio do escritor, seria tarefa quase impossível reeditar a obra.

Na entrevista que deu à Folha de Casa Branca, mencionada neste artigo, Ganymédes diz: “Que daqui a cem anos alguém resolva escrever o segundo volume.” Bem, já se passou metade disso. Teremos que esperar mais cinquenta anos para, pelo menos, ver o livro Uma Vez Casa Branca... reeditado? É muito tempo, muita demora...


Ganymédes José, em uma de suas fotografias mais conhecidas, que ilustrou dezenas de seus livros que circularam entre jovens de todo o Brasil em seus quase 20 anos de carreira de escritor


Fonte: Sérgio A. Scacabarrozzi

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