A retirada de um flamboyant de grande porte na Praça João XXIII, em frente ao cemitério municipal de Casa Branca, tem provocado discussão entre moradores e membros anônimos nas redes sociais. A árvore oferecia sombra a visitantes e também a comerciantes, sobretudo em períodos de maior movimento, como o Dia de Finados.
No local, o exemplar não apresentava, de forma aparente, sinais evidentes de comprometimento severo, o que levou as discussões sobre a real necessidade da supressão e os critérios técnicos adotados para a decisão.
Flamboyant suprimido pela Prefeitura - Foto: Redes Sociais
Procurada pelo Portal da Cidade, a Prefeitura de Casa Branca não respondeu aos questionamentos até o fechamento desta reportagem. Em publicação nas redes sociais, no entanto, o município informou que o corte faz parte de um plano de ação voltado à substituição de árvores com risco de queda na área urbana.
De acordo com a administração municipal, o flamboyant apresentava deterioração interna provocada por doença e vinha sendo monitorado há cerca de 60 dias. Nesse período, segundo a Prefeitura, houve agravamento do quadro, com ausência de brotação e sinais de secagem progressiva. A gestão afirma que a supressão foi necessária por questões de segurança e que o exemplar será substituído por espécies mais adequadas à arborização urbana.
Além da nota, a Prefeitura divulgou um laudo técnico. No entanto, o documento não apresenta assinatura nem identificação do responsável.
Laudo técnico sem assinatura do profissional responsável divulgado pela Prefeitura - Foto: Redes Sociais
Diante das dúvidas, a reportagem ouviu a bióloga Karem Baldin Pelaes para uma análise técnica independente. Ela explica que a avaliação de risco em árvores urbanas segue normas específicas, como a ABNT NBR 16246-3, e não deve se limitar à inspeção visual. “Existem métodos mais precisos, como o tomógrafo e o resistógrafo, que permitem avaliar as condições internas da madeira”, afirma.
A especialista afirma que a ausência de folhas ou a presença de galhos secos não são, isoladamente, indicativos de morte da árvore. “O flamboyant pode perder suas folhas dependendo do clima. É necessário avaliar o tempo e o contexto antes de concluir que está comprometido”, explica.
Sobre o caso, Karem pondera que não esteve no local, mas levanta dúvidas com base nas informações disponíveis. “Eles avaliaram por 60 dias, mas eu, particularmente, sou muito contra corte de árvore. Trabalho com paisagismo e vejo que, muitas vezes, há pedidos de retirada por motivos diversos, como sujeira. Não estou dizendo que houve irregularidade, mas é importante ter cautela”, afirma.
Ela reforça a necessidade de documentação técnica adequada. “Existe um laudo? Alguém assinou esse documento? Porque, do jeito que foi apresentado, não é possível verificar. É indispensável um documento assinado por profissional habilitado, com descrição detalhada e conclusão”, pontua.
Para a bióloga, a ausência de um laudo completo compromete a validação da decisão. “Sem isso, não há como comprovar tecnicamente a necessidade da supressão”, diz.
Karem também afirma que decisões desse tipo exigem rigor técnico. “Sessenta dias de observação, por si só, não necessariamente justificam a retirada de uma árvore desse porte. O ideal seria uma análise mais aprofundada, inclusive com equipamentos específicos, que podem ser alugados ou terceirizados quando o município não dispõe deles”, avalia.
Outro ponto levantado é a compensação ambiental. “Uma árvore grande, antiga e frondosa não é substituída por uma única muda. A compensação normalmente é maior, podendo envolver o plantio de várias árvores, dependendo do impacto”, explica.
Ela acrescenta que, embora o flamboyant não seja uma espécie nativa, o porte do exemplar exige atenção. “Mesmo não sendo nativa, era uma árvore de grande porte. A compensação dificilmente seria de um para um. Isso precisa ser avaliado com critério”, conclui.
Karen Baldin Pelaes é bióloga formada pela Universidade de São Paulo (CRBio 72197/01-D) e Sócia Fundadora da Habitat - Arquitetura da Paisagem.